Uma Tarde com Anjo

Uma tarde com Anjo...

Sim, eu cresci,
sinto não poder ter tido essa paixão adolescente que todo mundo teve
ou têm durante seu período de vigência.
Eu, hoje, não tenho vigência. Nunca soube o que é o amor. Por quê?
Não que não o sentira? - já amei louca e doetiamente,
não que não queira sentÍ-lo novamente,
mas de destruição o inferno está carente perto do deletério de
amor não correspondido
Corresponder como? Ele nem sabe que o amo.
- Medícre que sou. - até.
A cidade dos amantes, hoje para mim, exala um podre bafo,
um doente bafo canceroso.
- Os namorados ternos suspiravam,
quando há de ser o venturoso dia?! Quando há de ser?!
- O noivo então dizia e ambos d'amores s'embriagavam.
Doente estou eu. Não me queira curar.
Sei não vai me amar como mereço.
E nem serás capaz de sarar essa ferida degenerativa.
Não.
Não, eu ainda acredito que possa gostar de alguém se é que não já gosto.
- mas é doloroso arrancar a casca da ferida mal tratada, ainda infeccionada.
Dar a palma à palmatória, a dar o braço a torcer
- braço este, que tem fratura exposta por já o tê-lo feito antes.
E antes... e antes....
E fica no teu ermo entristecida,
Alma arrancada do prazer do mundo, alma viúva das paixões da vida.
Sabe, uma tarde de abril suave e pura
visitava eu somente ao derradeiro lar;
tinha ido ver a sepultura de um ente caro, amigo verdadeiro.
Lá encontrei um pálido coveiro com a cabeça para o chão pendida;
eu senti a minh'alma entristecida e interroguei-o:
Eterno companheiro da morte, quem matou-te o coração?
- Ele apontou para uma cruz no chão, ali jazia o seu amor primeiro, cara!
- Depois, tomando a enxada, gravemente, balbuciou sorrindo tristemente:
- "Ai, foi por isso que me fiz coveiro!"
Este é o meu dia-a-dia, deleitando em braços falsamente fortes,
vivendo de paixões nunca vividas, sempre mortas.


Gustavo Ferreira


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